Por Karenn Liége e Vanessa Kober

“A tomada de consciência não irá partir de quem está confortável com a situação das coisas.”

A história da mulher na sociedade é também a história da liberdade! Ninguém foi tão humilhado e subjugado ao poder de outrem como a mulher. A diferença é que em relação à mulher sempre houve um jogo de aparências que em muitos casos fazia a própria mulher acreditar que esta era a forma correta de agir e ser tratada. Como consequência disto adquirimos cicatrizes ancestrais difíceis de desaparecer.

A pior escravidão é aquela que convence o escravo que sua condição é a melhor e mais segura.

A sociedade sempre se negou a reconhecer o valor da mulher como um indivíduo independente, ou ainda, como se não fosse um ser humano. Desta forma foram retirando tantos direitos da mulher que nunca houve um meio de defesa. Embora isto fosse a realidade em quase todas as sociedades e na maior parte da nossa trajetória, tivemos exemplos de grandes mulheres que agiram para mudar o rumo da nossa história, e graças e elas podemos fazer livremente nossas escolhas atualmente. Foram mulheres realmente especiais que conseguiram compreender o seu valor e obrigaram a sociedade a se adaptar à nova realidade criada. Como no caso de Maria da Penha que, aleijada pelo marido precisou recorrer à Comissão Interamericana dos direitos humanos dos Estados Americanos para conseguir condená-lo, o que obrigou o Brasil a criar leis de defesa à mulher. Há alguns anos, eu tratei uma mulher que reclamava do marido que não a auxiliava financeiramente, nem nos afazeres e ainda por cima a humilhava gravemente. Perguntei porque ela não se separava e ela disse que tinha medo de não conseguir criar o filho sozinha. Mas ora, ela já o estava fazendo, além de sustentar também o marido. Ela teria muito mais condições de criar o filho se não precisasse sustentar o marido e gastar seu tempo cuidando das coisas dele. Mas o medo de ficar sozinha e enfrentar os olhares recriminadores dos conhecidos a paralisava! Me perguntei neste momento porque isto era tão comum entre as mulheres, conheci muitas em minhas andanças que preferiam ser maltratadas a ficarem sós.

Mas não julguem, pois muitas de nós aceitamos muitas outras formas de desrespeito mais leves ou mais dissimuladas, e que são difíceis de detectar por estarmos com a autoestima abalada.

Em que momento da nossa história esquecemos da nossa natureza divina e entregamos nosso poder nas mãos de outras pessoas? Em que momento passamos a acreditar que precisamos mudar nossa natureza para sermos amadas? E pior, em que momento entendemos que necessitamos da atenção e amor da outra pessoa para sermos felizes? A mudança desta realidade está em nossas mãos principalmente. Somos mães, irmãs, esposas, educadoras e somos sim, responsáveis por esta tomada de consciência que não irá partir de quem está confortável com a situação das coisas. Está na hora de união, de apoio, de cura. Está na hora de adquirirmos conhecimento sobre a realidade das coisas, e isto é trabalhoso e muitas vezes bastante doloroso. O dia das mulheres vem nos lembrar das mulheres que foram mortas por buscarem seus direitos e que como herança nos deixaram a coragem de lutar. Hoje nossos direitos estão praticamente todos garantidos, o que está faltando é a cura das feridas emocionais em função da luta e das couraças que criamos para nos defender de tudo o que entendemos errado ao longo da nossa jornada.

Hoje não precisamos lutar como lutaram nossas mães e avós, precisamos lutar agora contra nossas crenças mais arraigadas e que nos impedem de sermos verdadeiramente felizes. De nos libertarmos destes padrões de beleza e comportamento que tem levado à depressão milhares de mulheres. Precisamos formar grupos femininos de apoio mútuo, de troca de experiências e principalmente de reencontro! Um grupo de mulheres tem um poder transformador em um nível tão profundo, que é impossível não contagiar toda a estrutura da sociedade. Um grupo de mulheres que se apoia e se cura mutuamente tem o poder de gestar a nova realidade que está por surgir, co-criando um Universo mais verdadeiro, mais amoroso, mais gentil e saudável.

Como podemos realizar essa partilha de saberes e apoiar as nossas transformações entre nós, mulheres?

Existem vários modelos de grupos femininos.

O mais simples deles é formado por grupos de amigas que marcam encontros para se apoiarem. Quando a amizade é sincera, funciona como um núcleo de apoio emocional e para aliviar as tensões do dia-a-dia, mas corre-se o risco de o grupo não crescer e acabar ficando dentro da zona de conforto.
Outro modelo são as vivências das rodas de sagrado feminino, onde existem pessoas que utilizam técnicas como dança de roda, fogueiras, cantos e rituais de integração com os elementos da natureza com finalidade de reequilibrar as energias femininas. Podem ser realizados por terapeutas xamânicos, ayurvedas ou que possuam uma busca nesta área.

Embora muito diferentes entre si, o grupo realiza um papel importante na cura, pois é onde a mulher percebe que não é a única a sofrer inseguranças, a ter medos, a esmorecer perante seus desequilíbrios emocionais. A mulher começa com o grupo a reconstruir sua autoestima.

Que benefícios um círculo de mulheres traz?

  • Aumento do vínculo afetivo
  • Criação de um espaço de segurança e amor para SER, integralmente, com as dores e amores que todas temos
  • O círculo é poderoso por si só. É uma mandala invisível de força e apoio
  • A espiritualidade é estimulada pela partilha, meditação e reconexão com o nosso ser mais profundo
  • Fortalecimento do feminino além do círculo: “onde um ou mais estiverem reunidos…” Complete a frase com aquilo que você acredita!

Dicas para montar um grupo de mulheres:

• Encontre amigas com o desejo em comum de crescimento. Comece com quantas tiver.
• Para que o grupo tenha um planejamento e crescimento, convide uma facilitadora com quem o grupo tenha afinidade (alguma terapeuta ou buscadora que tenha interesse e experiência no desenvolvimento do sagrado feminino).
• Se você não possui muitas conhecidas com esse propósito, busque na sua cidade, na internet ou jornais alternativos por profissionais holísticos e proponha o início de um grupo para quem você sentir afinidade.
• Aprofunde seus conhecimentos sobre o feminino, gestação, emoções, carreira, formação de família, história da mulher na sociedade, espiritualidade e tudo que sentir que esteja relacionado ao feminino.
• Ao estudar esses temas, comece a repartir com suas amigas. Quando você perceber, estará formando um grupo para fortalecer esse estudo e praticar as transformações necessárias.
• Além do estudo, coloque no seu grupo práticas como meditação, yoga, alimentação saudável, respiração e outras que fortaleçam seu sagrado feminino.
• Algumas etapas podem ser inseridas nos encontros: um momento de reflexão, outro de expressão corporal, de partilha das dificuldades e conquistas, espaço pra alimentação saudável. Explore as necessidades do seu grupo e as respostas virão automaticamente.
• Comemore as conquistas, as mudanças e as transformações do grupo! Façamos nosso re-empoderamento do feminino com alegria e força!

Bom trabalho a todas!

 

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