Grupo de homensMuito se fala sobre as dificuldades masculinas, principalmente na questão dos relacionamentos, mas até que ponto queremos de fato fazer alguma coisa para mudar essa situação?

É interessante observar as expressões das pessoas quando digo que venho coordenando grupos de homens. Muitas dessas pessoas, homens e mulheres, torcem o nariz como se isso fosse algo esquisito ou totalmente desnecessário. “Parece coisa de gay”, até isso já ouvi.

E geralmente a pergunta que ouço é: “Mas por que um grupo só de homens?”

A resposta é simples: “porque falta-nos cumplicidade verdadeira para fazermos nosso menino interno crescer e virar gente grande!”

Não nos conhecemos e acreditamos ser o que não somos. Não importa a idade, ainda acreditamos e perpetuamos os velhos estereótipos da sociedade patriarcal onde o “modo de ser homem” já vem estabelecido e encaixotado, desde antes de nascermos. Mesmo querendo escapar dessas amarras, é como se uma força muito maior nos arrastasse para um modo de pensar e agir dentro de velhos padrões de masculinidade. Não incluí aqui o sentir porque isso nunca nos foi permitido.

Outro dia ouvi nas ruas uma pessoa dizer para o filho que chorava: “Pare de chorar. Fale que nem homem, sem chorar!” Detalhe: a criança devia ter, no máximo, uns 3 anos.

Quantas mensagens como essas, diretas ou indiretas, recebemos ao longo da vida, seja na infância, adolescência ou mesmo na idade adulta? Todas elas nos dizendo como temos que ser e como devemos agir para sermos homens.

“Homem não chora nem por dor, nem por amor.” Assim começa a bela canção de Frejat. Mas nem precisava dizer isso, Frejat. “Todo mundo sabe que homem não chora.”

O MEDO (de não sermos “homens de verdade”) e a VERGONHA (por sentir medo e outros sentimentos “impróprios”) passam a determinar o que dizemos, o que fazemos, nossas escolhas… E assim nos tornamos seres confusos, inseguros, obscuros, pouco ou nada expressivos, muitas vezes agressivos ou insensíveis. Outras consequências desse cenário aparecem em muitas pesquisas e estatísticas: os homens são mais propensos à violência, ao alcoolismo e ao uso de outras drogas; sofrem mais de doenças cardíacas; morrem em média oito anos mais cedo que as mulheres; são maioria nos presídios e cometem mais suicídios.

E nada disso fala sobre quem somos de verdade, apenas demonstra o quanto estamos feridos, pois o que pode ferir mais uma pessoa do que acreditar que ela tem que pensar e agir como os outros dizem e como determinam milênios de história?

Quando um homem escuta de outro homem algo que até então considerava vergonhoso demais para ser compartilhado, então, nessa hora ele descobre que também pode lidar de forma mais aberta e sincera com o que antes considerava inadequado para um homem.

Os grupos de homens são espaços que surgem para criar a oportunidade de olharmos e falarmos sobre nossas experiências, conquistas, dificuldades e medos. Quando fazemos isso em grupo torna-se muito mais fácil, pois descobrimos rapidamente que podemos sim compartilhar questionamentos e experiências de vida sem medo de sermos julgados ou passar vexame, afinal todos ali vivem o mesmo autoengano de acreditarem em jargões equivocados sobre si mesmos.

Participar de um grupo de homens exige certa dose de coragem e ousadia, assim como repensar o que é ser homem hoje. Coragem vem de “core” (coração) e ousar significa arriscar, enfrentar desafios. Abraçar e enfrentar novos desafios com o coração.

Será que estamos dispostos a criar essa coragem?

Um abraço, Alexandre Vieira
Psicólogo, facilitador de Grupos de Homens no Rio de Janeiro e participante do Movimento Guerreiros do Coração.

 

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