Guerreiro

Um homem se humilha, se castram seus sonhos
Seu sonho é sua vida e a vida é trabalho
E sem o seu trabalho, o homem não tem honra
E sem a sua honra, se morre, se mata
Não dá pra ser feliz, não dá pra ser feliz.

(Guerreiro Menino – Gonzaguinha)

Como um homem costuma se sentir quando está sem trabalho ou ganhando menos do que o necessário? “Péssimo!”, “inútil!”, “menos homem!”. Essas são as respostas mais comuns quando falamos sobre carreira e trabalho nas reuniões do Grupo de Homens. E não é para menos, pois desde eras longínquas associa-se masculinidade à capacidade de “ganhar a vida”, construir patrimônio, prover a família. Epa! Um momento, por favor… Isso não foi na época em que ficava a cargo do homem o sustento familiar, enquanto cabia à mulher os cuidados da família e do lar? Se esse perfil de família ficou para o passado, por que ainda somos medidos e medimos nosso valor pela capacidade de pagar as contas? Seria aceitável, tanto para o homem quanto para a mulher, que ela pagasse a conta do restaurante ou arcasse com as despesas da casa, caso o homem estivesse desempregado ou numa situação de baixa remuneração? Caso positivo, por quanto tempo? E a que preço?

Não questiono a importância do trabalho ou do dinheiro no dia a dia de qualquer pessoa. Nem tenho a pretensão de ter a solução para as questões acima, que para muitas pessoas podem até soar ridículas. Mas acredito que ninguém duvide que, ainda hoje, são dilemas e complicadores sérios em muitas relações. Interesso-me mais pelo questionamento em si, acreditando que através dele cada um possa encontrar o melhor caminho na situação e no momento em que se encontra. Interesso-me também pela necessidade de um olhar mais cuidadoso para o valor de identidade pessoal que colocamos no fator “ter ou não ter ocupação digna e capacidade de consumo.”

A música de Gonzaguinha soa como um alerta para uma “marca de masculinidade”, que faz parte de um antigo paradigma patriarcal, e que só pode acarretar a desonra de um homem em tempos de crise como, por exemplo, o que estamos passando agora, quando o desemprego parece se tornar uma sombra constante e ameaçadora.

Gonzaguinha sabia que não é tão fácil ser homem quanto se costuma pensar. “É triste ver esse homem, guerreiro menino, com a barra de seu tempo por sobre seus ombros.” Ainda precisamos cantar muitas vezes para nos lembrar e concordar que “Guerreiros são pessoas, são fortes, são frágeis. Guerreiros são meninos, no fundo do peito.” Sim, um homem/guerreiro não é e nunca foi a fortaleza que se quis acreditar. No seu íntimo, por trás da armadura de combate, onde ninguém consegue penetrar (nem ele mesmo!), vive um menino que sofre calado, que chora calado, e também precisa de colo e carinho. Ah, se todos os homens e mulheres soubessem e conseguissem aceitar algo tão simples!

Estamos vivendo agora a quebra de um paradigma que sempre sufocou muitos homens. As mulheres fizeram a sua revolução e continuam na luta justa por direitos iguais. Já são provedoras de muitos lares ou dividem as despesas em outros tantos. E assim somos convidados todos os dias a mudarmos a nossa forma de enxergar as famílias, as relações de casais e os nossos “papéis” nessas e em outras instituições sociais. Se tivermos coragem para aceitar esse convite, homens e mulheres, poderemos jogar fora as velhas e caquéticas identidades e cantar sem duvidar dos versos do grande poeta Gonzaga Júnior:

Um homem também chora
Menina morena
Também deseja colo
Palavras amenas
Precisa de carinho
Precisa de ternura
Precisa de um abraço
Da própria candura

Ainda temos muito trabalho pela frente, mas não tenhamos nenhuma dúvida que uma nova realidade está lentamente sendo construída para todos. E todos sairemos ganhando.

Um abraço, Alexandre Vieira.
(Psicólogo, facilitador de Grupos de Homens no Rio de Janeiro e participante do Movimento Guerreiros do Coração)

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