Tema da redação do ENEM de 2016, a discriminação religiosa é fato cada vez mais recorrente em nosso país, tão plural na cultura, nas artes e também nas crenças.

O professor de língua portuguesa Bruno Kober escreveu uma redação de exemplo para seus alunos e aproveitamos para divulgar aqui, já que o assunto é muito importante e com o avanço da religião dentro da política, é necessário refletir sobre isso e achar alternativas de equilíbrio e convivência pacífica.

O Portal do Bem defende o Estado laico e alerta para o perigo do avanço do fundamentalismo que se apresenta hoje no Brasil.


 

Costumavam me incomodar os preenchimentos conversacionais que recorriam a “Fica com Deus”, “Que Deus te acompanhe”, “Deus te abençoe”. Havia pouco tempo, eu me convertera ao ateísmo, e, como em todo bom começo deslumbrado, caíam-me mal esses desejos: se eu não acreditava mais em Deus, por que deveria acatá-lo no que julgava simples capricho dos outros? A percepção de que aceitar a despedida cristã do interlocutor é um ato de carinho, muito mais do que de religião, foi meu primeiro passo em direção à tolerância.

Os relatos históricos vêm nos mostrando há tempos que a religião é um campo minado para a intransigência: cristãos eram perseguidos por judeus e por pagãos na Antiguidade; judeus foram expulsos da Inglaterra, da Espanha e da Alemanha em períodos diferentes da história; mórmons eram caçados por americanos no século XIX. Há uma longa lista de opressões em que os protagonistas apenas alteram sua posição, mas o enredo básico mantém-se. A suposição de que determinada religião salva, enquanto a outra não, sempre permeou os mais sangrentos momentos da humanidade.

Se a premissa de uma tradição religiosa é fazer o bem, sua prática não pode se afastar disso, e a falta de condescendência com aquele que segue outro caminho não pode ser uma opção sequer considerável. Não há – não deveria haver, na verdade – outro pensamento mais evidente que este: a pertença a determinada tradição envolve razões geográficas, familiares, socioculturais muito mais complexas do que uma simples opção. Nascer no Brasil dá a alguém maior probabilidade de ser cristão do que nascer no Oriente Médio ou na Índia, por exemplo. Negar a recorrência de fatores condicionantes como esses é, no mínimo, desonestidade intelectual.

Um africano devoto de uma prática antiga não cristã cultiva, em essência, a mesma relação com a religião que um mexicano católico. Assim, a tolerância tem seu primeiro passo justamente na compreensão de que eu não preciso salvá-lo ou inteirá-lo à minha tradição para que ele conheça a “verdade” – a sua é apenas uma das várias existentes, todas com o mesmo fim. No Brasil, as religiões de matrizes africanas são constantes vítimas dessa visão “cruzadística” que tenta as salvar do que não é salvável, porque simplesmente não precisa de salvamento – nem de salvação.

O Cristianismo é a tônica religiosa do nosso país, o que facilmente se explica pela nossa história e, mais recentemente, pelo surgimento de diversas correntes protestantes. Apesar disso, crescem os números de praticantes ou de simpatizantes de outros segmentos, como o espiritismo, o candomblé e o ateísmo. Há, ainda, que considerarmos o emblemático sincretismo do nosso povo – tão contado pela nossa literatura, como fez Jorge Amado em suas maiores obras. Parece que intolerância definitivamente não combina com um povo que, dependendo da necessidade, vai ao culto, à missa, ao terreiro e à sessão de passe para pedir intercessão.

Em tempos de apelo à “cristofobia” – de inversão de opressor e oprimido –, é preciso ter cuidado com o terreno em que andamos. O combate à prática da intolerância deve começar com nosso sistema político. Temos hoje mais de 150 deputados abancados em púlpitos evangélicos na câmara. Todavia, o real problema não é haver políticos que defendam os interesses de uma religião; o problema é não haver representantes que o façam a todas as matrizes religiosas do país. O primeiro passo, portanto, é assegurar o direito de representatividade política às diversas práticas. Para isso, talvez a retirada de crucifixos nas repartições públicas seja o primeiro passo – ou a inserção de imagens que nos remetam às outras. À sociedade, na figura de líderes religiosos, resta promover cultos ecumênicos em que a tradição diferente possa ser apresentada a quem não a conhece: isso já é combate ao preconceito. Por que não unirmos Santa Bárbara e Iansã em um mesmo culto? Dias Gomes teria dado um desfecho bem diferente a Zé do Burro se esse simples exercício de alteridade fosse efetivado. Cabe, ainda, a cada membro da sociedade a compreensão de que a condição religiosa do outro, diferente da sua, não o faz seu inimigo, mas alguém que busca a mesma relação com o transcendental, porém com dogmas diferentes. Eu quebrei meus dogmas intolerantes quando percebi que a diversidade é, de fato, a única salvação.

Bruno Kober

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