Todos nós, assim que nascemos, ganhamos – simbolicamente – um espelho de presente. Este espelho é, em seguida, colado em nosso peito.

E assim vivemos toda a nossa vida refletindo os outros e vendo nos (espelhos dos) outros o nosso reflexo.
Hermann Hesse disse: “Se você odeia uma pessoa, odeia algo nela que faz parte de você. O que não faz parte de nós não nos incomoda.”
Ou como escreveu Jung em suas “Memórias, sonhos e reflexões”: “Tudo o que me irrita no outro pode ajudar-me no conhecimento de mim mesmo.
Tudo o que está fora é como o que está dentro e vice-versa.
E este jogo de espelhos acontece sempre dentro de um contexto inteligentemente sincrônico e magnético, isto é, cada espelho pertencente a Grande Teia Universal está constantemente co-repelindo e co-atraindo, segundo a lei do Karma através da Sincronicidade e da Ressonância.
Lembre-se: apenas uma camada de 2 mm de pele separa – simbolicamente – um universo infinito dentro de um universo infinito fora de nós.
Mas como não nos reconhecemos como seres essencialmente perfeitos (porque nos sentimos cindidos e não queremos acessar nossa sombra para não sofrermos mais), acabamos nos buscando fora – nas relações, na profissão, na vida social – e esta é uma das mais fortes pulsões humanas: ver-se e buscar-se no outro, no externo.
Desta forma, construímos religiões, filosofias e mitologias, sistemas políticos, nos relacionamos, temos vida profissional, social, afetiva, casamos, temos filhos… sempre numa angustiada busca de si mesmo, na intenção desesperada de preencher ansiosamente uma incompletude imaginária.
A questão do amor inter-relacional também precisa ser compreendida através desta perspectiva.
Por exemplo, quando nos apaixonamos temos a impressão de que o amor chegou com a outra pessoa. E se esta pessoa nos abandona ou nos trai, nos sentimos vazios e perdidos como se o amor tivesse nos abandonado.
Na verdade, o amor está sempre dentro de nós, o amor é sempre nosso, portanto impossível de ser roubado ou perdido. Ele apenas pode não ser acessado e/ou expresso.
Mas necessitamos do outro para que este amor – que é constitucionalmente nosso – possa ser acessado, expresso e expandido.
Então (co)atraímos karmicamente alguém para “plugarmos” o nosso amor, que em última instância, é o amor por nós mesmos que precisa ser constantemente experienciado e expandido, até que ele se realize como Amor Incondicional e Universal (que os hindus chamam de Prema Bhakti).
A grande armadilha é que neste processo – e até por ignorância do próprio processo – acabamos, ao invés do exercício da troca saudável que gera crescimento para todos, desenvolvemos apegos, dependências, ciúmes, etc.
Em terapia é muito importante que o terapeuta tenha a consciência de que cada cliente que chega para ser tratado por ele, é uma parte dele mesmo que ele (co)atraiu para que pudesse ser também acessada e curada nele mesmo.
A Ressonância, em terapia, aparece expressando uma compreensão mais ampla e mais profunda daquilo que Freud chamou de transferência e contra-transferência nas quais se baseia o processo da psicanálise.
Se sofremos porque nossos pais não nos viram e nos reconheceram como somos, podemos inferir que talvez esse não-reconhecimento seja um reflexo, uma indicação, do nosso próprio não auto reconhecimento.
Aí podemos atrair pais (ou amigos, cônjuges, filhos) que não nos reconhecem, para que possamos acessar e reequilibrar internamente nosso auto reconhecimento, nosso auto valor, nosso poder pessoal e nossa autoestima.
Mas como, enquanto cultura, não aprendemos tudo isso e ainda temos o binômio culpa/vítima profundamente inserido em nossa visão de mundo, demoramos a entender este processo, e nossas questões muitas vezes acabam se repetindo e repetindo (em geral cada vez mais contundentemente) até que em algum momento acessemos, entendamos e transformemos o que ainda nos faz experimentar sofrimento e limitação.
Um exemplo: certa vez chegou ao nosso consultório uma mulher muito deprimida dizendo que ela havia descoberto na semana anterior que o marido a traía com uma amiga sua.
Claro que demos toda a atenção e acolhimento à ela. E ela estava naturalmente muito triste e muito revoltada e atribuindo aos dois traidores toda a culpa no evento. Mais adiante perguntei: “Que traição você deve estar fazendo com você mesma que a sua alma precisou atrair uma traição fora, para você poder entrar em contato com a traição que você deve estar se fazendo internamente?”

Ela arregalou os olhos, ficou irritadíssima (porque o que eu falei não faz o menor sentido…) e quase gritando falou: “Eu fui uma excelente esposa, terminei a faculdade em uma área que eu adorava e nem exerci minha profissão para poder cuidar integralmente da família, me doei o tempo todo aos filhos e ao marido…”
Aí, percebendo o timing certo, eu tive que interromper a sua fala para que o insight pudesse acontecer e a cliente perceber que, independente da ótima intenção que ela teve e da sua indiscutível eficiência, ninguém passa por cima de si mesmo impunemente, mesmo que priorizar o outro em detrimento de si ainda seja uma coisa vista como muito virtuosa em nossa cultura.
Talvez um dos sistemas de cura onde a Ressonância e a Sincronicidade são mais explicitamente consideradas e trabalhadas, é na ancestral técnica do xamanismo havaiano chamada de Ho’oponopono.
Um médico psiquiatra havaiano chamado Dr. Len (que aprendeu esta técnica de sua mestra kahuna), apresentou-se para trabalhar em um sanatório no Havaí, no setor mais complicado, que era onde estavam os doentes criminosos de altíssima periculosidade. Ninguém mais queria trabalhar lá.
Perguntado como iria proceder, ele disse que necessitava apenas de uma sala e dos prontuários dos pacientes, e que não iria ser necessário estar pessoalmente com eles.
O resultado ao longo do tempo, foi que acabaram tendo que fechar aquele setor do sanatório pela falta de doentes… todos eles haviam se curado!
Mais tarde, perguntado como havia procedido, qual era a “mágica”, o Dr. Len contou que ele apenas olhava o prontuário, via a foto e o nome do paciente, lia seu caso, e procurava, pela ressonância, curar as doenças em si mesmo.
Perguntado novamente qual era o segredo destas curas fantásticas (provavelmente deveria ser uma tecnologia extremamente complexa), respondeu que ele apenas dizia internamente: “Sinto muito “ (a aceitação do que foi e do que é), “Me perdoe”, “Eu te agradeço” (a compreensão da função) e “Eu te amo” (o reequilíbrio e a cura).
Ou seja, ele curava dentro dele aquilo que a sincronicidade e a ressonância faziam entrar no seu campo de consciência.
Dr. Len diz que qualquer coisa que entre no seu campo de consciência, você faz parte daquilo também. Pode ser uma notícia no jornal na banca.
Ou seja, se a sincronicidade fez com que ele estivesse durante aquele tempo naquele sanatório havaiano, com aqueles prontuários, era porque aquilo tudo estava enredado com ele também. E aí ele mapeava o externo, co-responsabilizava-se por sua parte e trabalhava dentro de si.
Tenho experiência própria e conhecimento de inúmeras curas através desta técnica tão simples e tão eficaz.

Ernani Fornari

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