SuperHomem

Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter.
(Superhomem, a canção – Gilberto Gil)

Uma das perguntas que nos fazemos nos trabalhos com Homens é “O que é ser homem hoje?”. Uma pergunta aparentemente simples, certo? Você arriscaria respondê-la? O que mais nos interessa na verdade não é encontrar uma resposta definitiva, mas tentar desfazer a respostas cristalizadas que povoaram, e ainda povoam, as cabeças de homens e mulheres.

Uma revista de grande circulação publicou recentemente uma pesquisa onde essa pergunta foi feita a várias personalidades públicas. O mais interessante foi acompanhar a variação das respostas, algumas bem dentro dos padrões arcaicos da nossa sociedade patriarcal, outras bem atualizadas, como a da atriz e apresentadora Ester Jablonski:

Acho que o homem de hoje é um “work in progress” [trabalho em andamento, em tradução livre].

Mas o que significa “trabalho em andamento”? Pelo que podemos observar parece que estamos em processo de transformação. Há bem pouco tempo atrás éramos seres definidos por todos aqueles estereótipos que já relatamos antes (provedores, protetores, caçadores, desbravadores, decididos, destemidos, viris, etc, etc.). E pagamos um preço bem alto para tentar manter essas imagens endurecidas e que só revelam nossas máscaras. Na verdade, ainda estamos pagando esse preço, pois o que são algumas poucas décadas de mudanças frente a milênios de afirmação e confirmação de velhos e limitantes conceitos de conduta social?  Mas, o que antes era considerado “privilégio masculino”, aos poucos vem deixando de ser. Agora as mulheres também são provedoras, protetoras, caçadoras, decididas, etc, etc. Isso mudou o mundo e muitos homens ainda não sabem lidar bem com isso. Para estes homens é como se elas tivessem usurpado seus símbolos de masculinidade, deixando-os perdidos e perplexos.

As velhas “bases masculinas” foram demolidas e não podemos mais nos identificar com conceitos e comportamentos ultrapassados, pois eles não se encaixam nos anseios e necessidades de uma sociedade em profunda mudança. Já foi o tempo em que nos iludíamos acreditando que ser homem bastaria e que o mundo masculino tudo nos daria, como cantou Gil. Esse era o tempo dos pretensos superhomens, que acreditavam estar no topo da cadeia alimentar. O tempo em que nos antagonizávamos com as mulheres para nos diferenciarmos, sobrepondo-nos a elas e assim nos declararmos machos dominantes, orgulhosos representantes do “sexo-forte”, os donos do mundo. O resultado trágico disso tudo é que não nos afastamos só das mulheres, mas do feminino. E sem o feminino, em nós, o que somos? Somos seres cindidos, enfermos, amputados, deficientes na alma. De forma alguma isso é uma afirmação nova, os sábios da antiguidade já entendiam que a vida se faz equilibrada pela combinação das energias masculinas e femininas, Yang e Yin se complementando proporcionalmente na constituição do Todo. Quando uma energia se sobrepõe à outra, dá-se um desequilíbrio com resultados danosos a todos.

Quem dera pudesse todo homem compreender que o feminino em nós não nos transforma em mulheres, nem “bichas”, nem desqualificados, dignos de ser expulsos do “paraíso masculino”. Ao contrário, nos torna homens mais completos e melhores, pois descobrimos que não precisamos ser donos da verdade, nem conquistadores de mulheres ou do mundo para sermos homens. Homem que é homem não conquista para dominar, mas torna-se responsável e cuida com amorosidade do que conquista. Homem que é homem reconcilia-se sem preconceito com o seu feminino, há tanto tempo banido, para conseguir se afinar com o seu coração, ouvir suas intuições e dar voz aos seus sentimentos e emoções. Coisa de mulherzinha? Não!!! Coisa de ser inteiro, seja homem ou mulher, de quem valoriza a relação consigo mesmo, com os outros e com a sua casa, Terra. Coisa de quem já aprendeu com os equívocos do passado e deseja uma forma mais amorosa, compassiva e respeitosa de se relacionar com todas as formas de vida.

Homem que é homem, ama. Ama porque tem coração e não se envergonha disso. Ama e cuida com todo carinho de quem ama. E também assume todos os riscos de ser amante declarado, porque tem que ter coragem para assumir esses riscos que tanto nos assustam. Tem que ser muito macho para ser um homem diferente, um homem inteiro: Masculino sim e em harmonia com o seu feminino!

Um abraço, Alexandre Vieira.
(Psicólogo, facilitador de Grupos de Homens no Rio de Janeiro e participante do Movimento Guerreiros do Coração)

Comentários

Comentários